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domingo, 17 de fevereiro de 2013

O tempo dos milagres - Karen Thompson Walker

SINOPSE: Nunca é aquilo que receamos que acaba por acontecer. As verdadeiras catástrofes são sempre diferentes – inimagináveis, inesperadas, desconhecidas… E se o nosso dia de 24 horas se tornasse mais longo, primeiro em minutos, depois em horas, até o dia se tornar noite e a noite se tornar dia? Que efeito teria este abrandamento no mundo? Nas aves do céu, nas baleias do mar, nos astronautas do espaço e numa rapariga de onze anos, a braços com as mudanças emocionais da sua própria vida? Uma manhã, Julia e os pais acordam na sua casa nos subúrbios da Califórnia e descobrem, juntamente com o resto do mundo, que o movimento de rotação da Terra está a abrandar visivelmente. A enormidade deste facto está quase para além da compreensão. E, no entanto, ainda que o mundo esteja, na realidade, a aproximar-se do fim, como afirmam alguns, a vida do dia a dia tem de continuar. Julia, que enfrenta a solidão e o desespero de uma adolescência difícil, testemunha o impacto deste fenómeno no mundo, na comunidade, em si própria e na sua família.

OPINIÃO: Aquando a polémica do 12/12/2012, das conversas acerca do fim do mundo, acabei por proferir uma frase que vejo agora aqui desenvolvida num magnífico livro: "Se o mundo tiver de acabar, não será apenas num dia, não será de uma vez só."

Ora, à parte o sensacionalismo a que estamos habituados, junto dos filmes americanos, "O tempo dos milagres" traz um ponto de vista minucioso, assustador, emotivo e deveras interessante sobre o tão falado apocalipse. 

Junto de Júlia, conhecemos o relato das consequências do abrandamento. O movimento de rotação abrandou e os dias estão a aumentar. As horas de sol e de escuridão aumentaram e as consequências de tal fenómeno são absolutamente desastrosas. 

Júlia é uma pré-adolescente de 11 anos, que além de ter de lidar com este fim do mundo lento, vagarosamente atordoante, está a enfrentar as suas próprias mudanças, o mundo cruel do crescimento. Encontra-se a lidar com a sua própria sociedade que é a escola, com a perceção distorcida do mundo dos adultos, sempre acompanhando o processo do mundo em que vive, do planeta, que também é o nosso, em processo de desintegração.

Parabenizo esta autora pela pesquisa que foi feita para a construção do enredo, pela pertinência na forma inteligente como abordou este tema, que eu julgava já tão esgotado. Não precisou de criar explosões, tsunamis e terramotos para transmitir o terror do fim. Pelo contrário, penso que conseguiu fazê-lo de forma mais eficaz ainda, através deste relato na voz de Júlia.

O enredo é lento, como o próprio abrandamento, mas acaba por transmitir exatamente o que seria suposto: o impasse de um mistério, que ninguém consegue travar, e que ameaça de dia para dia com uma força divina, demasiado desigual para que seja tomada de ânimo leve, ou mesmo com qualquer frente que não seja o pânico. Contudo, até este pânico é lento, pois, tal como nos é dito no livro, até a adrenalina tem de cessar a qualquer momento, o corpo não aguenta este estado por muito tempo, mas este inimigo impiedoso não volta atrás, não se deixa atenuar pela falta de retaliação. O mundo está doente e leva-nos a todos com ele.

Outro fator curioso caiu no contexto político e social. Analisando a história do mundo, temos noção das tendências do povo perante os momentos de catástrofe mundial, e as diferenças que se verificam nos diferentes continentes. Essas observações, explicando como a Europa reage, como a Ásia se sente mais e como a África se vê sem meios para sobreviver, faz-nos entrar ainda mais nesta terrível realidade e vê-la como algo possível.

Quanto à reação da população, esta conhece a tendência para se dividir, para tomar diferentes posições e, previsivelmente, dá asas a preconceitos, a intolerâncias de ambas as partes, a minorias e, consequentemente, à triste discriminação, com o fator violência sempre associado.

A escrita é muito agradável, dando atenção aos pormenores junto dos personagens, não cansando com descrições desnecessárias do ambiente, mas fazendo-as com precisão. É dada a devida importância à caracterização psicológica das personagens, das emoções e a menção constante das expressões ajuda a prever as ações vindouras e a adivinhar comportamentos de "e se".

Em suma, é um livro obrigatório, no sentido em que traz uma mensagem sensibilizadora, urgente para o coração do mundo.

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