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segunda-feira, 28 de maio de 2012

Entrevista a Ricardo Tomaz Alves


1. Fala-nos um pouco sobre ti.

Ainda sou muito jovem e só agora comecei a conhecer-me. Acredito que uma pessoa possa levar uma vida inteira sem se compreender totalmente, sem conhecer todas as suas qualidades e defeitos, forças e fraquezas e, parecendo esta limitação humana um pouco triste é um factor que nos dá graça e torna imprevisíveis. Posso, no entanto, partilhar o pouco que sei sobre a minha pessoa. Sou calmo, caseiro, cinéfilo e extremamente pensativo (o que pode, por vezes, levar-me à soturnidade e melancolia). Extremamente sonhador, bem podia ter um quarto nas nuvens só para mim. Adoro tocar e criar música e considero-me criativo por natureza. Enfim, um rapaz com qualidades e defeitos, como qualquer outro, à procura de si.

2. Agora sobre o teu livro.

 “A Devota” conta uma história passada nos subúrbios e vila de Sintra, em locais secretos que desafiam a imaginação e que retratam a luta interior de uma jovem que terá de ultrapassar as difíceis fases da infância e adolescência enquanto enfrenta a luta interior de acreditar ou não no que lhe é dito e ensinado, enfrentando vários desafios à sua fé e psique.

3. De onde surgiu a ideia para esta história?

Sendo português, um país maioritariamente católico, não tendo a minha família fugido à regra, sempre ouvi, desde pequeno, que Deus vê e ouve tudo e que está sempre connosco, o que me levou a perguntar-me se estará presente nos nossos momentos mais íntimos e a que ponto será essa omnipotência e presença invasão e violação de privacidade, surgiu então a ideia de escrever uma história que abordasse este tema dramática e comicamente.

4. Já tens projectos futuros? Pretendes manter o mesmo género? Podes dar-nos uma luz do que virá?

Tenho escritos e prontos para publicação cinco livros, encontrando-me a escrever o sexto. Não pretendo ser um escritor de estilo único porque acabaria por oferecer sempre mais do mesmo ao leitor, mas antes do género multifacetado, explorando vários estilos e abordar várias técnicas, evitando a repetição e previsibilidade. Escrevi um romance fantástico, uma auto-biografia, um romance, um livro de contos e um ensaio, tendo regressado recentemente ao género romancista. Todos são especiais e importantes à sua maneira, oferecendo-me sensações diferentes de escrita e pensamento que espero poder transmitir ao leitor.

5. O que pensas da literatura portuguesa? Costumas ler? Achas importante apostar no que é nacional?

Penso que precisa de ser mais sustentada por parte das editoras, que parecem ter medo de apostar em novos autores portugueses. Acredito que existe talento e muitos escritores sedentos de o mostrarem. Qualidade literária não falta, apenas apoio. Acredito que se tal acontecer, a tendência em ler-se autores portugueses aumentará exponencialmente, tal como tem vindo a acontecer com a música nacional, que é cada vez mais ouvida. Tendo tanto para mostrar, é só darem-nos uma oportunidade. O autor que mais li até agora foi Saramago, se bem que Eça, Pessoa e Florbela Espanca não me escaparam. Tenho de admitir que há outros autores que merecem mais a minha atenção do que aquela que lhes tenho dado, mas já lhes prometi retratar-me dessa falha.

6. Autores que te inspiram:

Fiodor Dostoievski, José Saramago, Miguel de Cervantes, Oscar Wilde, R.L. Stine, George Orwell, Chuck Palahniuk, Franz Kafka, Stephen King.

7. Livros:

“D. Quixote de La Mancha”, “O idiota”, “Ilíada”, “O triunfo dos porcos”, “Retrato de Dorian Gray”, “Memórias de uma gueixa”, “Clube de Combate”, “Ensaio dobre a cegueira”, “Caim”, “Evangelho segundo Jesus Cristo”, “Onde vamos, papá?”, “Metamorfose”, “Os homens que odeiam as mulheres”, “A paixão de Maria Madalena”, “A luz”, “Carrie”, “Teleny”, “A volta ao mundo em 80 dias”, “Harry Potter”, “O senhor dos anéis”, “Arrepios”.

8. Filmes: 

“Fight Club”, “Drive”, “O Padrinho”, “Inception”, “O grande ditador”, “Donnie Darko”, “Old Boy”, “Forrest Gump”, “Dr. Strangelove”, “Laranja Mecânica”, “Full Metal Jacket”, “2001: Odisseia no espaço”, “The Departed”, “Raging Bull”, “Taxi Driver”, “A corda”, “Pulp Fiction”, “Sacanas sem lei”, “O bom, o mau e o vilão”, “Assassinos Natos”, “O estranho caso de Benjamim Button”, “Snatch”, “Rock N Rolla”, “A praia”, “Trainspotting”, “Irreversível”, “A vida é bela”, “O maquinista”, “O assassínio de Jesse James pelo cobarde Robert Ford”, “O feiticeiro de Oz”,       Casablanca”, “Harvey”, “Amadeus” e tantos outros.

9. Apelos ou agradecimentos que queiras deixar:

Apelo à fé nos novos autores portugueses, seja em que corrente artística for e agradeço àqueles que perdem algum tempo das suas vidas para me lerem e que acreditam no que faço e sobretudo naquilo que ainda posso vir a fazer.

10. O que achas do blog d311nh4?

É visualmente agradável, está bem organizado, as entrevistas estão bem estruturadas e são feitas questões pertinentes. As críticas são concisas e os passatempos são uma boa forma de manter os visitantes interessados e atentos.


quarta-feira, 23 de maio de 2012

A Devota - Ricardo Tomaz Alves

SINOPSE: “A Devota” conta uma história passada nos subúrbios e vila de Sintra, em locais secretos que desafiam a imaginação e que retratam a luta interior de uma jovem que terá de ultrapassar as difíceis fases da infância e adolescência enquanto enfrenta a luta interior de acreditar ou não no que lhe é dito e ensinado, enfrentando vários desafios à sua fé e psique.

OPINIÃO: "A Devota" é um livro pequeno, que levanta milhares de questões.
Muitos podem achá-lo exagerado, ou até mesmo desconexo com a realidade do quotidiano. No entanto, durante a minha leitura, dei-lhe uma visão hiperbólica de temas, que me fizeram pensar e, talvez, regressar ao passado.

A educação religiosa pode ser um impasse ao progresso da sociedade. Não quero com isto dizer que ser católico é sinónimo de regressão, porque, porventura, também eu o sou, mas quando falamos de catolicismo exacerbado, como colocar talas de cavalo numa criança e esperar que ela floresça com garra neste mundo, isso sim, é limitar o pensamento humano.

A personagem central deste livro, Sara, foi educada num seio religioso bastante opressivo. A ingenuidade de Sara perante a realidade do mundo foi quebrada aquando da morte do pai e, aí, surge um mistério em torno da integridade do progenitor.

Preocupada com o futuro dos filhos, a mãe decide integrar Sara num colégio de freiras. 
Devo dizer que conheço o funcionamento de alguns colégios católicos, liderados por freiras, e a realidade não foge assim tanto ao que Ricardo descreveu n'"A Devota".
O controlo, os castigos e a disciplina, são a realidade que Sara passa a conhecer.

Contudo, as dúvidas de Sara começam a notar-se com o surgimento de Tomás. Este, um erudito dedicado ao pensamento, enamora-se pela protagonista e ajuda-a a sair do seu, tão confortável, casulo. Tomás questiona os dogmas e discute-os com Sara que, por sua vez, vê, lentamente, o seu mundo desmoronar.
Veja-se que Sara nunca conheceu outro mundo para além do da fé e, ao constatar as falhas lógicas, fica perdida dentro de si mesma.

Respeitei imenso o que Ricardo fez no final, a perda da identidade e a loucura subjacente a esses sentimentos, tão confusos.

A nível técnico, Ricardo, falha na exposição exaustiva de termos científicos e explicativos, em deterioramento das emoções das personagens. Alguns dos momentos precisavam de maior desenvolvimento e os avanços de tempo, por vezes, são desconcertantes.
Notei alguma crueldade que poderia ter sido tratada com um pouco mais de tato.

Em suma, com um pouco mais de trabalho e atenção aos pormenores, acredito que o Ricardo consiga elaborar romances únicos. Afinal, o cerne está lá, falta apenas limar as arestas.

sábado, 19 de maio de 2012

Acácia: Ventos do Norte - David Anthony Durham

SINOPSE: Um assassino enviado das regiões geladas do norte numa missão.

Um império poderoso cercado pelo seu mais antigo inimigo.

Quatro príncipes exilados, determinados a cumprir um destino.
Prepara-te, leitor, para entrar no mundo deslumbrante de Acácia.

Leodan Akaran, rei soberano do Mundo Conhecido, herdou o trono em aparente paz e prosperidade, conquistadas há gerações pelos seus antepassados. Viúvo, com uma inteligência superior, governa os destinos do reino a partir da ilha idílica de Acácia. O amor profundo que tem pelos seus quatro filhos, obriga-o a ocultar-lhes a realidade sombria do tráfico de droga e de vidas humanas, dos quais depende toda a riqueza do Império. Leodan sonha terminar com esse comércio vil, mas existem forças poderosas que se lhe opõem. Então, um terrível assassino enviado pelo povo dos Mein, exilado há muito numa fortaleza no norte gelado, ataca Leodan no coração de Acácia, enquanto o exército Mein empreende vários ataques por todo o império. Leodan, consegue tempo para colocar em prática um plano secreto que há muito preparara. Haverá esperança para o povo de Acácia? Poderão os seus filhos sera chave para a redenção?


OPINIÃO: "Acácia" é um livro de fantasia que, à semelhança de muitas boas obras a que a Saída de Emergência nos habitua, nos transporta para um mundo medieval. Onde Reis mantêm o trono com um ténue fio de seda, enquanto outros conspiram para o cortar.

Quanto à tecnicidade, "Acácia", explora o espaço com elevada perícia. O que não admira, tendo em conta o facto de o autor ter-se dedicado, no passado, a romances históricos que, por norma, requerem um desenvolvimento descritivo mais elaborado.

Uma vez que este livro é apenas a primeira metade do original, é bastante informativo, servindo para apresentar convenientemente as personagens que criarão o enredo em torno do trono de Acácia. Só tardiamente é que surge uma reviravolta que anuncia a entrada para o trama propriamente dito.
Quanto às personagens, salientam-se o Rei Leodan, os seus quatro filhos, Hanish e a complexidade do fiel conselheiro da família Akkaran.

O Rei Leodan, carinhoso, temente pela segurança dos filhos e amável para com o seu séquito, sofre de um problema que corrompe grande parte do povo de Acácia. Há um negócio antigo por detrás da beleza e soberania do reino, a troca de escravos por droga. Achei interessante a exaltação de um grave problema social, que transportado para este mundo, funciona perfeitamente. A discrepância política em deitar por terra um acordo que traz lucros volumosos para os cofres, mas que, ao mesmo tempo, pinta uma mancha negra na beleza aparente de um reino que se orgulha pela sua retidão.
É sob este plano que os pensamentos de Leodan vão incidir, na antecipação da reação dos filhos ao conhecerem esta realidade.

Hanish é aquele a que podemos chamar de vilão, contudo devo lançar a questão: Será? Depois de ler nas entrelinhas e ouvir as explicações de Hanish, será que ele é o lado negativo deste enredo? É outro factor interessante, a incapacidade de evidenciar um herói vs vilão.

Há umas sugestões, nas opiniões que circulam, da similaridade deste livro para com a obra de George R.R.Martin. Normalmente sou redondamente contra estas comparações, porém, desta vez, sou obrigada a concordar que no que toca à construção da família Akkaran, há uma semelhança forte com os Stark de Martin.
O primogénito de Leodan confunde-se com Robb, Corrin com Sansa e Dariel com Rickon. 
Tirando isto, não há nada que possa ser comparado entre ambos os livros.

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