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quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

O pacto da meia-noite - David Whitley


SINOPSE: Agora é uma cidade secreta onde tudo pode ser vendido e comprado - bens, pessoas, emoções… 
Uma elite bem-sucedida subjuga a cidade, e as crianças, até completarem os doze anos, são mera mercadoria... 
O acaso reúne, na velha torre do conde Stelli, Mark e Lily, dois jovens que foram vendidos como servos. De início, o seu único objectivo é trabalhar e sobreviver. Mas, gradualmente, vão compreendendo que podem alterar o seu destino e o da própria cidade, ajudando a libertar o seu povo. Mas irão as forças ocultas que os vigiam deixar que os seus planos se coroem de êxito? Que alcancem o grandioso destino que os aguarda? E o que é, afinal, o Pacto da Meia-Noite? Conciliando aventura, thriller político e fantástico, este é um romance sofisticado e brilhante, na senda dos grandes clássicos de C. S. Lewis ou Philip Pullman, o tipo de literatura infanto-juvenil que exerce um apelo irresistível também sobre o público adulto.

OPINIÃO: Uma cidade chamada "Agora" onde os bairros se distribuem desde "Leão" a "Caranguejo", com as particularidades dos signos subjacentes ao ambiente em cada zona. 
Um local de superstição, onde o astrólogo tem um papel de alto nível burocrático. 
Só estas ideias já servem para aplaudir a imaginação do autor, mas o que realmente torna este livro interessante é o fator político que o completa: o sistema de trocas.
Imaginem o nosso mundo mas sem qualquer altruísmo, sem caridade, sem ajuda, sem dinheiro. O sistema de trocas governa em Agora e a partir dos doze anos já se é independente e "nunca mais se recebe nada de graça". As crianças são bens que também podem ser trocados, logo o instinto de família também se vê um tanto pobre e mesmo o de amizade sofre com essa necessidade de trocar tudo (mas mesmo tudo, até favores).


Mark é trocado e vê-se numa torre na companhia de um médico, um velho astrólogo e uma jovem, Lily. Com Lily ele aprende a vingar no mundo de Agora nos primeiros meses desde que completa os doze anos que o tornam senhor de si mesmo. Ela ensina-lhe a usar o anel dos contratos e a fazer pequenas trocas por necessidade.
Com o decorrer dos acontecimentos, o destino separa estes dois amigos e eles crescem sob ideais totalmente distintos, um criando a diplomacia dos negócios e a sede de conquista económica e outro, através da reflexão e da visão do mundo negro e pobre, decide  construir o conceito de caridade por puro altruísmo.
Para além dos dois protagonistas temos três irmãos: Glória, Beni e Laud. O papel destes irá impulsionar decisões na vida de Mark e Lily.
Gostei em particular de Laud e das semelhanças que vi nele da personagem clássica em "Oliver Twist", o Trapaceiro.
Glória, por sua vez, é o rosto do vicio. Afinal nenhuma sociedade pode existir sem que este a venha denegrir na obscuridade. 
O vicio de Glória são sentimentos, isto é, uma vez que tudo pode ser trocado em Agora, existe também o comércio de sentimentos. Desde o momento em que Glória vendeu os seus, passa a necessitar de um em particular para existir, para sentir algo. 
Esta temática é extremamente interessante e dá imenso que pensar.
Quanto ao título do livro, confesso que fiquei alheia ao seu significado até perto do fim e só teve o seu auge nos últimos capítulos para encerrar a história.
Não sei se terá continuação uma vez que foi deixado um final em aberto que dá para ambas as opções.
Em geral gostei e aconselho às mentes mais ávidas de jogos de culturas e lógicas fantásticas.

quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Entrevista a Célia Correia Loureiro




1. Fala-nos um pouco sobre ti.
Nunca sei ao certo o que possa dizer sobre bem que tenha importância para a minha escrita... mas talvez possa começar pelo facto de gostar, verdadeiramente, de percepcionar o mundo e as pessoas ao meu redor. Sou observadora e a minha imaginação é tanto uma cruz quanto uma benesse. Sempre gostei muito da companhia dos mais velhos, e foi da boca deles que ouvi as melhores histórias até hoje. Gosto de contadores de histórias e gosto de pensar em mim como uma. Tenho óptimos amigos que me mantém de bom humor e considero-me optimista por natureza - o que é a minha safa, porque sou demasiado impaciente. Acredito que o objectivo da vida é somente um - a aprendizagem, e que isso é transversal à humanidade e ao tempo. E que, assim sendo, vivemos várias vidas e vamo-nos aperfeiçoando. Gosto de analisar as situações por um prisma intemporal, de despir as pessoas e os seus motivos e de ir ao fundo na sua condição de humanos. É isso, sobretudo as fraquezas e os pequenos triunfos, que dão alento à minha escrita. Tenho quatro irmãos mais novos que também me vão dando pano para mangas na hora de imaginar, e que são um dos motores do meu desenvolvimento pessoal. Depois adoro o nosso Portugal pitoresco, as aldeolas, as nuances na cultura, a nossa história, e é disso que me alimento na hora de criar algo. Gosto também de expôr o passado das pessoas como o motivo incontornável dos factos do presente e dos rumos para o futuro, como três espaços temporais intrincados e indissociáveis.


2. Agora sobre o teu livro.
O meu livro é passado na aldeia de onde parte da minha família paterna é originária, e foi escolhida porque conheço o seu ritmo e a sua mentalidade, mas também porque é um espelho da cultura beirã - casinhas de granito, lojas, uma vida ainda um pouco ruralizada, calçada empedrada, envelhecimento populacional, imigrantes e emigrantes. Paguei nela como cenário e é responsável por parte do enriquecimento da história, porque eu precisava mesmo de um meio fechado e conservador. A Letícia e a Olímpia, protagonistas, nasceram do meu desejo de mergulhar nestes dois temas: violência doméstica e Alzheimer. As outras personagens importantes são o Gabriel, que vive com alguns arrependimentos e pesos de consciência, o Sebastião, um velhinho sábio que vai constituir uma ponte entre as duas personagens principais e as filhas da Letícia, que são a visão inocente, simultaneamente, nua de preconceitos, das situações.

3. De onde surgiu a idéia para esta história?
Antes de mais gostaria de deixar claras algumas coisas quanto ao livro e ao meu modo de escrever: o que escrevo não é um espelho de quem sou, nem das minhas crenças, nem da minha experiência de vida, embora acabe por espelhar parte disso. Não partiu de nenhuma experiência pessoal ou próxima de violência doméstica, mas talvez da minha veia feminista e de considerar um ultraje que os homens se prestem a esse papel de monstros. Creio que, embora actualmente também já existam homens vítimas do mesmo mal, sendo a mulher a vítima é pior ainda porque estamos perante uma situação em que a força dela é subjugada. E quando o homem está num meio fechado ou tem amigos nas autoridades (como alguns casos de que tive conhecimento) é ainda mais complicado conseguir que se faça justiça contra ele. A outra temática destacada é o Alzheimer e como torna os seus doentes vulneráveis. A minha bisavó sofria de Alzheimer, mas confesso que não me inspirei nela para criar a Olímpia (que por sua vez foi baptizada com o nome da outra bisavó). Simplesmente quis passar para as páginas de um romance o assombro que sentia a cada vez que a minha bisavó dizia algo de absurdo ou surreal, derivado da perda de memória. Como o Alzheimer tem características hereditárias, tornou-se rapidamente naquela doença que eu nunca queria ter e, desse modo, a Olímpia surge desse receio de vir a morrer sem me recordar do que fui. De onde surgiu a ideia geral? É complicado... tinha estes dois temas e estas duas personagens e arranjei forma de as juntas no mesmo enredo. Além do mais, já me passeavam na cabeça há alguns anos...


4. Já tens projetos futuros? Pretendes manter o mesmo género? Podes dar-nos uma luz do que virá?
Deixar de escrever não é possível. Estou sempre embrenhada nalguma espécie de transe (geralmente acompanhado de música) que me transporta para lugares onde não estou e para épocas em que não vivi. Neste momento estou a terminar um novo romance, "O Funeral da Nossa Mãe". Tenho outros projectos, sim. Estou a pensar em começar a escrever contos infantis. Creio que as minhas irmãs eram capazes de me ajudar nisso... Estou também a pensar em investir em livros mais pequenos, que não somente romances, com mensagens e lições de vida pertinentes. É algum pretensiosimo da minha parte achar que, aos 22 anos, possa ensinar alguma coisa a alguém... se não puder, ao menos espero poder expôr a minha visão, válida ou não.


5. O que pensas da literatura portuguesa? Costumas ler? Achas importante apostar no que é nacional?
Eu adoro ler mas confesso que a literatura portuguesa não é a minha favorita. Acabo por ser mais crítica quando sei que o autor escreveu, de facto, as linhas que estou a ler. Em livros traduzidos culpo o tradutor. Mas já li José Luís Peixoto - tem trechos que são verdadeiras obras primas quase poéticas, mas depois dispersa-se um bocado, na minha opinião. Acho que tem mais poder descritivo do que narrativo, o que para mim significa que mergulho nas palavras dele mas não nas histórias que conta. Já li vários do José Rodrigues dos Santos e gabo-lhe o trabalho de pesquisa e a imaginação, mas não a narrativa, que é informativa e jornalística. Já li alguns da Margarida Rebelo Pinto - lamento que passe a ideia de que as mulheres são farrapos humanos numa tentativa vã de serem amadas e que o amor é tão volúvel como ela sugere. Já li Tiago Rebelo e vi-lhe algumas qualidades, embora não tenha ficado louca por reler. Já li Margarida Pedroso, Sophia de Mello Breyner, Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Saramago, Luísa Castelo Branco e confesso que, daqui, destaco a imaginação riquíssima e sem par do nosso Nobel e a escrita nua e irónica do Camilo e o sentido de humor de Eça, mas não são autores a que recorra quando estou com o bichinho da leitura. Adorei o primeiro romance da Luísa Castelo Branco e foi a única escritora portuguesa que, até hoje, me fez sorrir e chorar perante a literatura nacional. Recentemente descobri "Um Amor Sem Tempo" do Carlos Machado que tenciono ler mas, pelo excerto disponibilizado pela autora, o palavreado é pretensiosamente rico e o enredo é cliché. Contudo sim, com é óbvio, aposte-se no que é nacional porque há alguns nomes de qualidade.

6. Autores que te inspiram:
Para escrever? Nenhum. Para viver e sonhar e aprender? Margarett Mitchel tirou-me o tapete debaixo dos pés: ninguém pode alcançar aquele nível de escrita. É perfeito o seu "E Tudo o Vento Levou". Anita Shreve tem uma sensibilidade sem igual. Sherry Thomas é, para mim, a rainha do romance. Jane Austen conseguiu impregnar livros de linguagem inocente com paixão contida. Ian McEwan é profundo e perfeito nos enredos que cria. Rani Manicka faz-me desejar conseguir expor a cultura ocidental tão bem quanto ela apresenta a oriental. Isabel Allende e Laura Esquível introduzem surrealismo nos livros sem lhes roubar o crédito. Louise May Alcott fala de intimidade familiar como ninguém, Dostoievsky e Nabokov juntam-se a Henry Miller para apresentar as camadas obscuras da natureza humana. Alice Walker com A Cor Púrpura fala de um tipo de submissão invulgarmente digna e da pureza da ingenuidade. E a J.K. Rowling deu-me a convicção de que, através da escrita, pode criar-se outros mundos com contornos reais totalmente saídos da cabeça do escritor que, assim, toma o papel de um arquitecto.

7. Livros:
E Tudo o Vento Levou, A Praia do Destino, A Cor Púrpura, Expiação, Lolita, Chocolate, Perfume, Madame Bovary (que mulher odiosa!), O Sétimo Selo e a Fórmula de Deus (pelo debate).


8. Filmes: 
E Tudo o Vento Levou, Ágora, Incendies, In Bruges, A Bela e o Monstro, Orgulho e Preconceito (2005), Amélie, Anjos e Demónios, Um Longo Domingo de Noivado, Mar Adentro, Cinema Paradiso e La Vita è Bella 


9. Apelos ou agradecimentos que queiras deixar:
Agradecimentos... à editora, que se interessou pela obra e que a levou até vocês. Aos meus amigos, que são o meu maior tesouro. Aos meus irmãos, que adoro.

10. O que achas do blog d311nh4? 

Confesso que não costumo acompanhá-lo muito... as entradas a que acedo dizem respeito a críticas literárias de livros que tenho interesse em ler mas, felizmente (porque também na cultura tem que haver variedade de gostos) eu e a administradora do blogue, colega de "profissão", não temos muitas leituras em comum. No entanto as críticas que li são bem fundamentadas e objectivas, o que dá credibilidade ao blogue.


terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Demência - Célia Correia Loureiro

SINOPSE: No seio de uma aldeia beirã, Olímpia Vieira começa a sofrer os sintomas de uma demência que ameaça levar-lhe a memória aos poucos. A única pessoa que lhe ocorre chamar para assisti-la é a sua nora viúva, Letícia. Mas Letícia, que se faz acompanhar das duas filhas, tem um passado de sobrevivência que a levou a cometer um crime do qual apenas a justiça a absolveu. 

Perante a censura dos aldeões, outrora seus vizinhos e amigos, e a confusão mental da sogra, Letícia tenta refazer-se de tudo o que perdeu e dos erros que foi obrigada a cometer por amor às 
filhas. O passado é evocado quando Sebastião, amigo de infância de Olímpia, surge para ampará-la e Gabriel, protagonista da vida paralela que Letícia gostaria de ter vivido, dá um passo à frente e assume o seu papel de padrinho e protector daquelas três figuras solitárias…


OPINIÃO: Quando há talento há!
Conhecem aquela sensação de ansiedade no estômago depois de se ler um bom livro? Imagens do mesmo a passarem constantemente na mente e aquela palavra repetida vezes sem conta: "Fantástico!"
Quando comecei a ler este livro nunca pensei que me depararia com tamanha intensidade de acontecimentos. A escrita é profunda e leva-nos até ao patamar mais intimo e sombrio das personagens fazendo-nos idealizar as condições de vida com que se deparam.
Estou maravilhada com a capacidade de Célia em vasculhar os demónios da sociedade rural (que facilmente se estenderia a todos) e na forma como estes são expostos numa história de tirar a respiração de tanta é a indignação que transmite.
Letícia e Olímpia são os dois rostos desta narrativa. Os problemas que enfrentam estão de acordo com as idades, estando Olímpia a sofrer de Alzheimer e Leticia a ser vitima de calúnias por ter assassinado o marido em legitima defesa. Sendo Olímpia mãe de Fernando, o falecido marido de Leticia, é de prever que a relação de ambas é muito hostil. Contudo, a perda de memória da idosa traz momentos oscilantes nas interações dependendo do que Olímpia se recorda ou não.
A noção desta doença neurológica é simplesmente assustadora. Remete o leitor a uma piedade e receio por ser um monstro tão real. As tentativas vãs de Olímpia compensar a sua memória são enternecedoras e revoltantes.
Também digna de piedade, porém com um lado mais determinado, está Leticia. O bullying que sofre por parte das pessoas da aldeia, assim como os seus dois anjinhos - as filhas - , dá vontade de interferir e ajudar estas três almas.
As escolhas de vida são a criação do enredo, isto porque, por outro lado, temos as vidas paralelas das duas protagonistas com homens diferentes que lhes teriam proporcionado vivências totalmente diferentes e poupado às resignações às quais se viram forçadas. Sebastião partilha a história de uma Olímpia jovem, determinada e também ela sofredora às mãos do sexo masculino e Gabriel... este vou deixar-vos descobrir por vós uma vez que é a minha personagem preferida e reserva surpresas que vos agarrarão ainda mais a este livro.
As filhas de Leticia estão muito bem construídas apesar de Maria me parecer demasiado infantil nos seus diálogos para a idade atribuída. Luz, a mais velha, poderia ter sido mais explorada. O mistério que envolve a personalidade desta criança não nutre os frutos que esperava. Por fim, como nem tudo pode ser bom, só tenho a apontar o fato de Leticia ter sido absolvida pela justiça pelo crime que cometeu. Em Portugal tal não acontece desta forma e ela nunca poderia vir a arranjar emprego como professora com o historial de assassina, seja em legitima defesa ou não. Mas em suma, é verdade que o que lemos é tão real, tão real que parece mesmo palpável, mas é uma obra de ficção logo deve ser lida como tal.
A Célia vem provar o que tenho vindo a dizer de que temos autores portugueses que superam de longe muita tradução e que não é preciso ter 60 anos para escrever obras com maturidade e profundidade.
Podia alongar-me muito mais, "Demência" tinha panos para uma crítica que referenciaria personagens tipo, ambientes em relação com sentimentos/personagens, presságios e algum fatalismo, mas como estamos num blogue e críticas gigantes são para serem passadas à frente por falta de tempo ou paciência, deixo-vos com estas palavras que não chegam para a mostrar a surpresa que tive ao ler este fantástico livro.
Aconselho mesmo!

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